março 7, 2026 Artigos

Deus é Pai… e Mãe também.

Por rafaelcp

O rapaz que perdeu o banquete

Conheci um rapaz que havia parado de ir à igreja. Não por descrença. Não por preguiça. Por linguagem.

A liturgia da congregação dele usava, em alguns momentos, a expressão “Deus Mãe.” Ele não conseguia. Soava errado, moderno demais, uma concessão ao Zeitgeist — palavra alemã para “espírito do tempo”, que uso aqui porque gosto de palavras difíceis e porque ela soa exatamente tão pomposa quanto a objeção que descreve. E então ele parou de ir.

Tentei argumentar. Disse que a eucaristia — a comunhão, o pão e o vinho partilhados na mesa do Senhor — era maior do que qualquer palavra que a cercasse. Que ele estava perdendo o banquete por causa do cardápio. Não adiantou. A palavra havia tomado o lugar de Deus, e ele não conseguia mais ver além dela.

Fiquei pensando nele por dias. E então me lembrei que essa história não é nova.


João 6 e os que foram embora

Em João 6, Jesus diz uma coisa que soa estranha até hoje: que sua carne é verdadeiramente alimento, seu sangue verdadeira bebida, e que quem o comer e beber permanecerá nele e ele nessa pessoa. É uma linguagem densa, quase perturbadora. E o texto registra a reação sem drama: muitos discípulos disseram “dura é esta palavra” e foram embora.

Jesus não correu atrás. Não simplificou. Não convocou uma reunião para revisar a comunicação. Virou para os doze que ficaram e perguntou, com uma economia brutal: “Também vós quereis ir?”

O rapaz que conheci estava em João 6. Com dois mil anos de distância, ele repetia o mesmo gesto — deixar o banquete por causa da linguagem. E Jesus, naquele capítulo, já havia dado a resposta: o problema nunca foi a palavra. Foi o que estava por trás dela.

Mas há uma diferença importante entre os discípulos de João 6 e o rapaz que conheci. Os discípulos ouviram a explicação diretamente da boca de Jesus e ainda assim foram embora. O rapaz nunca recebeu a explicação. Ninguém havia sentado com ele para dizer de onde vem essa linguagem, o que ela significa, e o que ela definitivamente não significa.

E se o problema não fosse ele rejeitar a linguagem — mas nós nunca termos explicado de onde ela vem?


Deus é espírito. Isso muda tudo.

Aqui está algo que a teologia clássica sempre soube mas raramente diz em voz alta: Deus não tem corpo. Não tem genitália. Não tem sexo biológico nem gênero no sentido que damos a essas palavras. João 4.24 é direto: “Deus é espírito.” Números 23.19 é ainda mais explícito: “Deus não é homem.” Oséias 11.9 repete, com Deus falando na primeira pessoa: “Porque eu sou Deus e não homem.”

Agostinho sabia disso. Tomás de Aquino sabia. Calvino sabia. Toda a tradição clássica insistiu que os nomes de Deus são analógicos — e vale parar aqui para explicar o que isso significa, porque é o coração de tudo.

Uma linguagem analógica é aquela que diz algo verdadeiro sem dizer tudo, e que nunca deve ser confundida com descrição literal. Pense assim: se eu digo que meu cachorro é leal, estou dizendo algo real. Mas não estou dizendo que ele assinou um contrato ou que refletiu sobre as implicações éticas da lealdade. A palavra “leal” se aplica a ele de forma verdadeira mas parcial — ela captura algo real da sua natureza sem esgotar o que ele é.

Com Deus, o abismo é infinitamente maior. Quando chamamos Deus de Pai, estamos dizendo algo real: que Deus é origem, sustento, amor provedor, autoridade que não abandona. Essas coisas são verdadeiras. Mas não estamos dizendo que Deus tem cromossomo Y, que se senta à cabeceira de uma mesa, que tem uma voz grave. Estamos usando uma imagem humana para apontar para uma realidade que transborda qualquer imagem.

Isaías 40 inteiro é uma meditação sobre isso. “A quem, pois, me comparareis?” pergunta Deus. Isaías 55 completa: “Meus pensamentos não são os vossos pensamentos… como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos.” A transcendência de Deus não é uma questão de grau. É uma questão de categoria. Não é que Deus é muito maior do que um pai humano. É que Deus é de uma natureza que nenhuma palavra humana consegue conter completamente.

Toda palavra que usamos para Deus é um dedo apontando para a lua. O erro não é usar o dedo. O erro é confundir o dedo com a lua.


A Bíblia já chamou Deus de Mãe. Você provavelmente não foi avisado.

E se “Pai” é aproximação, não fotografia — então o que fazer com “Mãe”?

Aqui muita gente se surpreende. Porque essa linguagem não foi inventada ontem por teólogos progressistas reunidos em algum simpósio acadêmico com café de filtro e muita boa intenção. Ela está na Bíblia. Ela sempre esteve lá.

Isaías 49.15: “Pode uma mãe esquecer o filho que amamenta? Mesmo que ela se esqueça, eu não me esquecerei de você.” Deus usa a imagem da mãe para descrever seu próprio amor — e se coloca acima dela. A comparação não é decorativa. É o argumento. Isaías 66.13: “Como uma mãe consola seu filho, assim eu o consolarei.” Deuteronômio 32.18 usa o verbo hebraico chul — o mesmo verbo usado para as dores do parto — para descrever Deus dando origem ao povo. Não é metáfora suave. É imagem visceral, corporal, deliberadamente materna.

E o próprio Jesus, em Mateus 23.37, descreve seu amor com a imagem de uma galinha reunindo os pintinhos debaixo das asas. É uma imagem doméstica, feminina, protetora. Jesus escolheu essa imagem. Não foi imposta a ele por nenhum comitê litúrgico moderno.

Vale mencionar ainda a Sabedoria — Hochmá em hebraico, Sophia em grego — que aparece personificada em Provérbios 8 como figura feminina presente na criação, ao lado de Deus, como artesã. A tradição teológica sempre debateu o que exatamente a Sabedoria representa, mas o fato é que a Bíblia escolheu uma figura feminina para habitar esse lugar tão próximo de Deus na origem de todas as coisas.

Isso não é modernidade. É redescoberta.


Cranmer e o povo que ouvia sem entender

O Arcebispo Thomas Cranmer, ao escrever o prefácio do Livro de Oração Comum em 1549, reclamava de algo estruturalmente parecido: o povo ouvia o culto em latim, língua que não entendia, e “ouvia apenas com os ouvidos” — o coração, o espírito e a mente não eram alcançados. A liturgia existia, era tecnicamente correta, era historicamente estabelecida. Mas não chegava.

Cranmer não estava propondo abandonar a tradição. Estava propondo que a tradição cumprisse sua função. A função do culto sempre foi instruir, alcançar, transformar as pessoas onde elas estão. Não onde achamos que deveriam estar, não onde estavam em outra época, não onde a teoria pressupõe que elas cheguem.

A linguagem é o veículo. O veículo existe para que as pessoas cheguem a Deus. Quando o veículo se torna o destino, algo saiu errado.


Quem a imagem do Pai não alcança

O mundo mudou. Isso não é argumento teológico — é observação empírica. A família bíblica, onde o pai era o centro, o sustentáculo econômico, a autoridade moral e o elo de continuidade da descendência, não é a realidade de boa parte das pessoas que entram numa igreja hoje.

Há quem tenha sido abandonado pelo pai na infância e carregue isso no corpo. Para essa pessoa, “Pai” não evoca proteção — evoca ausência. Há quem tenha sido criado por uma mãe sozinha, que foi simultaneamente os dois, e que aprendeu que amor incondicional tem rosto feminino. Há quem tenha sofrido abuso paterno e para quem a palavra “Pai”, dita no culto com solenidade, é uma faca pequena repetida toda semana. Há quem simplesmente nunca teve um pai presente o suficiente para que a imagem faça sentido como metáfora de amor.

Não estou dizendo que essas pessoas têm razão em rejeitar a linguagem do Pai. Estou dizendo que a linguagem não chega até elas — e que a Bíblia oferece outra porta de entrada que nós simplesmente paramos de usar.

A mãe de Isaías 49 alcança quem o pai de outros textos não alcança. Não porque seja teologicamente superior. Porque é humanamente diferente. E Deus, que é infinitamente maior do que qualquer imagem, cabe em ambas.


Ortodoxia não é o que parece normal. É o que é verdadeiro.

Não estou propondo que abandonemos a linguagem do Pai. Ela é bíblica, é tradicional, diz coisas verdadeiras e continua sendo usada por toda a liturgia cristã com razão. Estou dizendo que ela nunca esteve sozinha na Bíblia — e que empobrecemos nossa liturgia ao fazê-la andar só.

Chamar Deus de Mãe não é progressismo. Não é concessão ao Zeitgeist — já usei essa palavra, sei, estou me repetindo deliberadamente. É simplesmente abrir o que a tradição sempre teve guardado e que, por algum motivo que tem mais a ver com história cultural do que com teologia, parou de circular.

A estranheza que sentimos ao ouvir “Deus Mãe” não é sinal de erro teológico. É sinal de hábito interrompido. É o mesmo estranhamento que os cristãos do século XVI sentiam ao ouvir o culto em inglês pela primeira vez depois de séculos de latim. Soava errado. Era, na verdade, mais fiel.


O banquete ainda está posto

O rapaz que conheci perdeu a eucaristia. Perdeu o pão e o vinho, a presença real de Cristo na mesa, o banquete que a tradição cristã considera o centro da vida da igreja — por causa de uma palavra que Isaías usou séculos antes de ele nascer, que Jesus usou em Mateus, que Deuteronômio usou com o verbo do parto.

Ele pensava que estava defendendo a ortodoxia. Estava, sem saber, rejeitando a Bíblia para defender um hábito cultural do século XIX.

A palavra tomou o lugar de Deus.

O banquete ainda está posto. A mesa é maior do que qualquer palavra que usemos para descrevê-la. E Deus — que não é homem, que não é mulher, que é espírito e origem e amor que nenhuma língua humana esgota — continua esperando que a gente apareça para comer.