fevereiro 25, 2026 Artigos

Lutero, Calvino e… Cranmer?

Por rafaelcp
Um estante com um livro faltando e uma interrogação no lugar

Fui recentemente à Consciência Cristã, aqui em Campina Grande. Não fui para as plenárias — faz décadas que não acompanho isso. Fui pela feira de livros. Eu gosto de feira de livros do mesmo jeito que gosto de loja de tecnologia: entro para “dar uma olhada” e saio com coisas suficientes para montar um pequeno altar doméstico de culpas futuras.

Mas preciso ser honesto: eu me senti um pouco esquisito em estar ali.

O evento carrega um ruído público que não é pequeno. Nos anos anteriores, a Consciência Cristã ganhou notoriedade pelo convite — e posterior cancelamento — de um palestrante estrangeiro acusado de fazer uma leitura que ameniza a escravidão no Sul dos Estados Unidos. Não vou entrar nos detalhes dessa história porque meu objetivo não é transformar um texto sobre livros numa disputa sobre eventos. Mas também não consigo fingir que esse contexto não existe, porque ele levanta uma questão que me importa de verdade: se a nossa teologia pode ser sofisticada e ainda assim cega para o óbvio moral, então o problema é de formação — não apenas intelectual, mas de caráter.

Com esse desconforto no bolso, fui fazer o que fui fazer.


O que eu vi na feira

Olhei livros. Observei o que as pessoas procuram quando têm diante de si uma feira inteira de opções. E uma impressão veio como um estalo.

O cardápio era o esperado: muito Lutero, muito Calvino, teologia reformada em geral. Autores anglófonos como C. S. Lewis, John Stott, J. I. Packer. Até aí, nada surpreendente.

Mas havia algo a mais: uma procura considerável por Bíblias com tradução ou estética inspiradas na King James Version — aquela linguagem clássica, solene, com a gravidade de quem carrega séculos nas costas. E isso me disse algo.

Porque você não desenvolve esse tipo de gosto do nada. Ele vem de algum lugar. De uma herança cultural e eclesial muito específica.


Os frutos são amados. A árvore, ignorada.

Vamos ao ponto central deste texto:

O evangelicalismo brasileiro ama profundamente os frutos do mundo anglicano — e age como se essa árvore não existisse.

Quando um evangélico brasileiro compra Lewis, Stott e Packer, ele não está pensando: “estou levando três autores formados dentro de um universo cristão de língua inglesa moldado, por séculos, pelo anglicanismo.” Ele está pensando: “esses caras são bons.”

E eles são bons mesmo. Mas há um detalhe que raramente aparece: C. S. Lewis era anglicano. John Stott era anglicano. J. I. Packer era anglicano. Essa identidade some na hora em que os livros cruzam a fronteira. O autor vira um item neutro, como se tivesse sido produzido num laboratório sem história, sem denominação, sem tradição. O termo em latim para isso é Creatio ex nihilo. O termo em latim é só para mostrar o meu ínfimo vocabulário(que não vai muito além disso).

A mesma coisa acontece com a KJV, a King James Version. Ela não é apenas “uma Bíblia famosa”. Ela é um documento anglicano. Nasceu numa Inglaterra marcada pela Reforma, por conflitos religiosos e por uma preocupação muito concreta: formar um povo pela Palavra e pela oração pública. Ela é produto direto da tradição que Elizabeth, Cranmer e os reformadores ingleses construíram — com sangue, exílio e fé. Buscar uma “KJV em português” é, quase sempre sem saber, buscar uma experiência devocional de matriz anglicana.


Escola dominical. Hinário. Missão. Tudo isso tem endereço.

O apagamento não para nos livros. Ele está nas práticas mais cotidianas do evangelicalismo brasileiro.

A escola dominical parece ter existido desde sempre. Mas ela tem data, rosto e intenção. O nome mais citado é o de Robert Raikes (1736–1811), mas vale mencionar também Hanna Ball (1734–1792), metodista anglicana, que desenvolveu trabalho semelhante antes dele. A escola dominical nasce dentro do universo anglófono — e, em boa medida, dentro da órbita anglicana, direta ou indiretamente via metodismo.

O hinário congregacional que tantas igrejas brasileiras cantam tem a mesma raiz. A tradição de hinos devocionais que atravessaram o Atlântico — de Charles Wesley a Isaac Watts, ambos inseridos no ecossistema do protestantismo britânico — chegou ao Brasil embalada em missão. Missão anglófona.

E é aqui que o argumento se fecha: o evangelicalismo brasileiro, em grande parte, é filho de missões anglófonas. E missões não exportam apenas doutrinas. Elas exportam hábitos. Como se ensina. Como se canta. Como se organiza o discipulado. O que se considera “ser uma igreja saudável”. Quais autores viram referência. Qual Bíblia carrega prestígio.

Tudo isso chegou de um ambiente marcado — direta ou indiretamente — pelo anglicanismo. E esse fato raramente é nomeado.


“A Reforma foi na Alemanha e na Suíça”… e a Inglaterra fica onde?

A forma como o evangelicalismo brasileiro conta a história da Reforma é funcional. Mas é curta demais. O mapa tem dois marcadores:

  • Alemanha: Lutero.
  • Suíça: Calvino.

O resto vira rodapé.

Esse recorte cria um apagamento sério. Ele torna invisível uma parte inteira do processo reformador — aquela que moldou o cristianismo de língua inglesa e, por consequência, moldou bastante do protestantismo que chegou ao Brasil.

Onde estão Thomas Cranmer, que reformou não apenas doutrina mas a estrutura da oração e da vida litúrgica — formando gerações pelo ritmo da fé, não apenas pelo conteúdo? Onde está Richard Hooker, que articulou uma teologia de profundidade e equilíbrio raro, decisiva para entender o temperamento anglicano? Onde estão os mártires ingleses que enfrentaram perseguição e morte numa época em que a teologia não era debate de sala, mas questão de sobrevivência?

E onde está o dado mais simples de todos: o anglicanismo é hoje a terceira maior denominação cristã do mundo, presente em mais de 165 países, com cerca de 85 milhões de fiéis. Isso não é uma curiosidade. Isso é o resultado de uma das reformas mais bem-sucedidas em termos de alcance, permanência e influência cultural que o mundo cristão já viu.

Uma reforma que o evangelicalismo brasileiro herdou — e frequentemente não reconhece.

É como morar numa casa construída por três arquitetos e lembrar o nome de apenas dois.


Para quem é anglicano ou episcopal: este texto é especialmente para você

Aqui eu deixo de ser analista e falo diretamente.

Se você é anglicano ou episcopal no Brasil, você carrega uma herança que vai muito além do que é visível no dia a dia. A sua tradição formou a biblioteca que os evangélicos brasileiros leem sem saber a origem. A sua liturgia moldou o ritmo devocional que chegou aqui pelas missões. A sua Bíblia é a que tantos buscam pela estética sem entender de onde ela vem.

E por isso eu quero fazer um convite direto: vista o seu anglicanismo com mais convicção.

Não como arrogância denominacional. Não como disputa de quem tem a tradição mais nobre. Mas como consciência histórica — e como responsabilidade.

Quando você nomeia Cranmer numa conversa, você está devolvendo ao mapa um nome que foi apagado. Quando você apresenta Lewis ou Stott como anglicanos, não apenas como “autores cristãos”, você está dando contexto onde havia vácuo. Quando você fala sobre a Reforma inglesa com a mesma naturalidade com que se fala de Lutero e Calvino, você está corrigindo uma narrativa incompleta que prejudica a todos.

A Reforma não aconteceu só em dois lugares. Ela aconteceu também na Inglaterra. E os frutos dessa reforma estão por toda parte no protestantismo brasileiro — esperando ser reconhecidos.

Leve essa ideia adiante. Nas conversas, nos grupos, nas igrejas. Não como tese acadêmica, mas como memória viva. Porque memória, para a igreja, não é luxo: é parte do discipulado.

E talvez o primeiro passo seja simplesmente dizer, com clareza e sem vergonha:

Sim, além de Lutero e Calvino… também houve Cranmer.