Dan McClellan é um estudioso de manuscritos bíblicos com presença significativa nas redes sociais, onde comenta regularmente sobre o Jesus histórico — campo que não é exatamente o seu de especialização. Em dois argumentos que circulam com alguma frequência, ele afirma que o diálogo entre Jesus e Nicodemos em João 3 e o veredito de Tiago no Concílio de Jerusalém em Atos 15 são ficções literárias — composições gregas sem base histórica. A razão? Ambas as passagens dependem do grego para fazer sentido. Jesus era um camponês galileu que falava aramaico. Logo, as cenas são inventadas. Eu gosto bastante do Dan mas preciso marcar opinião dessa vez.
O argumento parece sofisticado. Não é.
No caso de João 3, o problema seria o seguinte: a palavra grega anōthen significa simultaneamente “de novo” e “do alto”. O mal-entendido de Nicodemos — que interpreta a necessidade de nascer “de novo” de forma literal — só funciona porque a ambiguidade existe em grego. Em aramaico, as duas ideias seriam palavras distintas. Logo, McClellan conclui, o diálogo é uma composição joanina sem lastro histórico.
No caso de Atos 15, o argumento é ainda mais específico. No Concílio de Jerusalém, Tiago cita o profeta Amós para justificar a inclusão dos gentios na comunidade cristã. O problema é que ele cita a Septuaginta — a tradução grega do Antigo Testamento — e não o texto hebraico original. E a diferença importa: em hebraico, Amós 9.12 fala em “possuir o restante de Edom”. Na Septuaginta, por uma variação de leitura, o texto diz “para que o restante dos homens me busque”. É essa segunda versão que sustenta o argumento de Tiago sobre os gentios. No hebraico, o argumento simplesmente não funciona da mesma forma. Logo, McClellan conclui, o discurso é uma composição de Lucas em grego, não um evento histórico.
Há um problema fundamental com essa linha de raciocínio. Para que ela funcione, é preciso postular um Jesus — e um círculo ao seu redor — que os dados históricos tornam impossível. Não improvável. Impossível.
I. O Mundo que McClellan Esqueceu
A helenização do mundo judaico não começa com os romanos. Não começa com Herodes. Não começa na Galileia. Começa no século IV a.C. com Alexandre Magno e se aprofunda de forma irreversível nos dois séculos seguintes.
Quando Antíoco IV Epífanes tenta impor o helenismo pela força em 167 a.C. e provoca a revolta dos Macabeus, ele não está introduzindo algo completamente estranho numa cultura virgem. Está radicalizando um processo que já havia penetrado o coração do judaísmo palestino — inclusive seu sacerdócio, inclusive sua capital. A evidência é inequívoca. Jasão, sumo sacerdote legítimo da linhagem zadoquita, não foi instalado à força por Antíoco. Ele pagou para obter o cargo e imediatamente construiu uma academia grega em Jerusalém. O problema que os Macabeus enfrentaram não era apenas a opressão síria. Era que uma fração significativa da elite judaica jerusalemita queria o helenismo. A crise macabeia é, entre outras coisas, uma guerra civil judaica sobre identidade cultural.
Os Macabeus venceram. Mas o que venceram precisamente? Venceram a imposição forçada e a profanação do Templo. Não reverteram dois séculos de penetração cultural. Os próprios hasmoneus que governaram depois da revolta — descendentes diretos dos Macabeus — adotaram títulos gregos, cunharam moedas com inscrições gregas e deram nomes gregos a seus filhos. A resistência foi real e heroica. A impermeabilidade cultural nunca existiu.
Isso significa que quando Jesus nasce em Nazaré no início do século I, o grego não é uma novidade escandalosa no mundo judaico palestino. É uma presença com pelo menos trezentos anos de história na região. A Septuaginta — a tradução grega das Escrituras hebraicas — havia sido produzida em Alexandria no século III a.C. para judeus que já não liam hebraico fluentemente. No século I, ela era a Bíblia padrão das sinagogas da diáspora, de Roma ao Egito. Fílon de Alexandria, contemporâneo de Jesus, era judeu profundamente comprometido com a Torah e escrevia em grego filosófico sofisticado sem qualquer sentimento de contradição. O judaísmo do século I não era uma cultura que resistia ao grego. Era uma cultura que havia aprendido a habitar o grego sem deixar de ser judaica.
A Galileia especificamente carregava esse peso histórico com uma camada adicional. Séforis, capital da região, estava a menos de seis quilômetros de Nazaré. Era uma cidade com teatro, infraestrutura romana, população mista e administração herodiana — administração que operava em grego. Um artesão (tektōn) de Nazaré que trabalhasse em Séforis não encontraria o grego como língua estrangeira exótica. Encontraria como língua do mercado, do contrato, do cliente.
O bilinguismo nesse contexto não é uma hipótese generosa. É a expectativa sociológica padrão.
II. O Círculo de Jesus Não Era de Camponeses Isolados
Há um detalhe que os críticos do tipo McClellan sistematicamente ignoram: Jesus não era chamado de tio, de amigo, de mestre no sentido coloquial. Era chamado de Rabuni. Esse título não é dado a qualquer pregador itinerante de aldeia. Pressupõe formação, autoridade reconhecida, e um nível de sofisticação intelectual que o próprio Evangelho de João registra sem cerimônia — Jesus debatendo com fariseus, escribas e doutores da Lei no Templo.
O círculo ao seu redor confirma o quadro. Joana, mencionada em Lucas 8, era esposa de Cuza, administrador da casa de Herodes Antipas — uma mulher de posição na corte herodiana, que sustentava financeiramente o ministério de Jesus. Mateus era coletor de impostos, uma profissão que exigia domínio prático do grego para lidar com a administração romana. Zebedeu tinha negócio suficiente para empregar trabalhadores assalariados — não era um pescador de subsistência. Pedro negociou diretamente com Cornélio, um centurião romano. Em que língua, exatamente, McClellan imagina que essa conversa aconteceu?
E então há Pôncio Pilatos.
O julgamento de Jesus por Pilatos é um dos eventos mais solidamente atestados de toda a tradição sobre Jesus histórico. Até os estudiosos mais céticos aceitam que Jesus foi executado por ordem romana. Se a execução aconteceu, o julgamento aconteceu. Se o julgamento aconteceu, houve comunicação entre Jesus e o prefeito romano da Judeia.
Pilatos era um funcionário imperial romano. Não falava aramaico. A língua administrativa do Oriente romano era o grego — e é em grego que João 18 registra aquele diálogo denso e filosoficamente carregado, culminando no “o que é a verdade?” que ressoa até hoje.
McClellan tem três opções aqui, e todas são ruins para ele. Pode dizer que a conversa com Pilatos também é ficção — mas aí está descartando o evento histórico que ele menos pode descartar. Pode postular um intérprete — mas invocar especulação conveniente depois de rejeitar o bilinguismo de Jesus por falta de evidência direta é um movimento metodologicamente desonesto. Ou pode aceitar que Jesus se comunicou em grego com o prefeito romano — o que destrói a premissa inteira do argumento.
O ministério de Jesus era sustentado por mulheres cosmopolitas, executado por homens com mobilidade profissional, atraía interlocutores de Jerusalém a Roma, e terminou num julgamento conduzido em grego diante de um prefeito romano. Esse não é o perfil de um movimento monolíngue enclausurado no aramaico rural da Galileia.
III. Uma Hipótese que Merece Ser Levada a Sério
Há uma tradição nos evangelhos — presente em Mateus — de que a família de Jesus fugiu para o Egito na infância e lá permaneceu por um período. McClellan, naturalmente, considera essa tradição não histórica. Mas aqui o argumento se inverte de forma interessante.
Alexandria no século I tinha a maior comunidade judaica do mundo fora da Palestina. Era profundamente helenizada. Foi lá que a Septuaginta foi produzida. O judaísmo alexandrino era, por definição, um judaísmo que pensava, orava e lia as Escrituras em grego.
Se Jesus passou anos formativos nesse ambiente — e a tradição diz que sim — isso oferece uma explicação histórica concreta para algo que McClellan não consegue ignorar: o Novo Testamento, nas suas camadas mais antigas, prefere sistematicamente a Septuaginta ao texto hebraico. Paulo, escrevendo em grego para comunidades gregas já em torno do ano 50, cita a LXX como Escritura natural. Esse padrão precede a redação dos evangelhos. Está enraizado na tradição oral do movimento desde muito cedo — talvez desde a sua origem.
Não estou afirmando que a fuga para o Egito é certamente histórica. Estou afirmando algo mais preciso: dado tudo o que já sabemos sobre o bilinguismo de Jesus pelo contexto galileu, pelo círculo social e pela helenização estrutural do judaísmo, a tradição do Egito deixa de ser um fardo especulativo e passa a ser uma hipótese que ganha plausibilidade. E a preferência pela LXX no movimento mais antigo de Jesus é um dado que precisa de explicação — e essa tradição a oferece.
IV. O Que Nicodemos e Tiago Realmente Provam
Com esse contexto estabelecido, voltemos aos dois casos que McClellan usa como evidência — e vejamos o que eles realmente provam.
Nicodemos
Nicodemos é descrito em João como archōn — membro do Sinédrio, fariseu, líder religioso de Jerusalém. Esse perfil sociológico já sugere alguém com acesso à educação helenística. O Sinédrio de Jerusalém no século I operava num ambiente administrativo onde o grego era língua de documentação e comunicação com Roma. Nicodemos não é um camponês galileu. É uma elite urbana jerusalemita.
Jesus, por tudo que estabelecemos, é um Rabuni galileu com formação intelectual reconhecida, mobilidade profissional em região bilíngue, e possivelmente anos formativos no judaísmo helenizado do Egito.
Dois homens com esse perfil, conversando no século I do mediterrâneo, possivelmente conversavam em grego. Não é uma concessão apologética. É a situação mais natural dado quem essas pessoas eram.
O anōthen joanino — a ambiguidade entre “de novo” e “do alto” — pode muito bem ser João explorando teologicamente uma ambiguidade que o próprio evento em grego já oferecia. Isso não é fraude literária. É teologia. João faz com a língua o que o evento autorizava.
McClellan vê uma marca do grego no texto e conclui: ficção. A conclusão correta é outra: o evento provavelmente aconteceu em grego.
Tiago no Concílio de Jerusalém
O argumento de McClellan sobre Atos 15 é, se possível, ainda mais fraco.
O Concílio de Jerusalém foi convocado para resolver uma questão sobre igrejas gentílicas. Os destinatários do veredito eram comunidades que liam as Escrituras em grego — que usavam a Septuaginta como Bíblia. Tiago, argumentando para essa audiência, cita a versão das Escrituras que essa audiência conhece e usa.
Isso não é anacronismo. É retórica elementar.
Paulo faz exatamente o mesmo em Atos 17, quando sobe ao Areópago de Atenas e cita poetas e filósofos estoicos gregos — entre eles Arato e Cleantes — para anunciar o Deus de Israel a uma audiência filosófica pagã. Paulo não está traindo o judaísmo ao fazer isso. Está fazendo algo intelectualmente sofisticado e teologicamente deliberado: usando a linguagem, as categorias e as referências culturais do seu interlocutor como ponto de entrada para uma mensagem radicalmente judaica. Grego por fora, Torah por dentro.
Ninguém conclui que o discurso no Areópago é ficção porque Paulo conhecia os estoicos. Pelo contrário — a competência de Paulo em transitar entre mundos intelectuais é exatamente o que torna o evento historicamente plausível.
E é precisamente esse perfil — o líder judeu do século I capaz de habitar o grego sem deixar de pensar em hebraico, de citar Arato e Amós com a mesma fluência, de usar a filosofia grega como pano de fundo para uma teologia profundamente judaica — que estamos esperando de Jesus. Não de qualquer Jesus. Do Rabuni. Do homem que debatia doutores da Lei no Templo, que era financiado por mulheres da corte herodiana, que foi julgado em grego por um prefeito romano. Esse homem não era um camponês monolíngue. Era o equivalente primeiro-secular do que Paulo seria uma geração depois — e Paulo aprendeu com alguém.
Tiago citando a LXX para igrejas gentílicas não é Tiago saindo do seu mundo. É Tiago falando a língua do seu interlocutor. Que é, precisamente, o que um líder competente faz.
V. O Problema Metodológico Central
Há uma confusão que atravessa todo o argumento de McClellan, e ela precisa ser nomeada com precisão.
Ele confunde três coisas distintas. A língua materna de Jesus era o aramaico — isso é consenso acadêmico e o artigo não questiona. O repertório linguístico de Jesus é uma questão em aberto, e os dados históricos apontam fortemente para o bilinguismo como expectativa padrão dado seu contexto. A língua de composição dos textos é o grego — isso também é consenso.
McClellan trata qualquer marca da língua de composição como prova de que o evento é ficção. Mas língua de composição e historicidade do evento são categorias completamente distintas. Lucas escreve em grego sobre eventos que considera históricos — exatamente como qualquer historiador antigo que escrevia na língua culta do seu tempo sobre eventos que ocorreram em outras línguas.
A questão não é se o texto tem marcas do grego. Claro que tem — foi escrito em grego. A questão é se o evento requer postular uma impossibilidade histórica. E aqui o argumento de McClellan desmorona completamente: o diálogo com Nicodemos não requer nenhuma impossibilidade. Requer dois homens cultos do século I conversando na língua franca do Mediterrâneo. O veredito de Tiago não requer nenhuma impossibilidade. Requer um líder judeu helenizado citando a versão das Escrituras que seus interlocutores gentios conheciam.
Nada disso é impossível. É o cenário mais natural possível.
VI. O Jesus que McClellan Precisa
Há uma ironia no argumento de McClellan que merece ser observada.
Ele se apresenta como defensor do rigor histórico — o estudioso sério que não aceita narrativas piedosas sem evidência. Mas o Jesus que o seu argumento exige é ele próprio uma ficção: um pregador apocalíptico galileu do século I completamente impermeável ao grego, isolado do mundo helenizado que o cercava por todos os lados, vivendo numa bolha aramaica num Mediterrâneo grego, cercado de colaboradores bilíngues sem que nenhum dessa língua lhe chegasse, chamado de Rabuni por discípulos e adversários sem que isso implique qualquer sofisticação intelectual.
Esse Jesus nunca existiu.
O Jesus que as fontes históricas — inclusive as que McClellan aceita — permitem reconstruir é um homem de perfil intelectual reconhecido, inserido numa rede social cosmopolita, nascido numa região bilíngue a seis quilômetros de uma capital helenizada, herdeiro de um judaísmo que havia três séculos convivia tensamente com o grego, possivelmente formado nos anos de infância no coração do judaísmo helenizado do Egito.
Quando esse homem conversa com um membro do Sinédrio de Jerusalém, é natural que a conversa seja em grego. Quando o líder do movimento que ele fundou cita a Septuaginta para igrejas gentílicas, é natural que cite a versão que essas igrejas conhecem.
O que não é natural — o que exige explicação, o que precisa de evidência — é o Jesus monolíngue que McClellan precisa que ele seja para que o argumento funcione.
A crítica falha não porque os textos sejam inerrantes. Falha porque o mundo que ela pressupõe nunca existiu.

