{"id":34,"date":"2026-03-07T00:42:37","date_gmt":"2026-03-07T00:42:37","guid":{"rendered":"https:\/\/lexorandi.com.br\/blog\/?p=34"},"modified":"2026-03-07T04:11:12","modified_gmt":"2026-03-07T04:11:12","slug":"deus-e-pai-e-mae-tambem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lexorandi.com.br\/blog\/deus-e-pai-e-mae-tambem\/","title":{"rendered":"Deus \u00e9 Pai&#8230; e M\u00e3e tamb\u00e9m."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>O rapaz que perdeu o banquete<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conheci um rapaz que havia parado de ir \u00e0 igreja. N\u00e3o por descren\u00e7a. N\u00e3o por pregui\u00e7a. Por linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p>A liturgia da congrega\u00e7\u00e3o dele usava, em alguns momentos, a express\u00e3o &#8220;Deus M\u00e3e.&#8221; Ele n\u00e3o conseguia. Soava errado, moderno demais, uma concess\u00e3o ao Zeitgeist \u2014 palavra alem\u00e3 para &#8220;esp\u00edrito do tempo&#8221;, que uso aqui porque gosto de palavras dif\u00edceis e porque ela soa exatamente t\u00e3o pomposa quanto a obje\u00e7\u00e3o que descreve. E ent\u00e3o ele parou de ir.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentei argumentar. Disse que a eucaristia \u2014 a comunh\u00e3o, o p\u00e3o e o vinho partilhados na mesa do Senhor \u2014 era maior do que qualquer palavra que a cercasse. Que ele estava perdendo o banquete por causa do card\u00e1pio. N\u00e3o adiantou. A palavra havia tomado o lugar de Deus, e ele n\u00e3o conseguia mais ver al\u00e9m dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei pensando nele por dias. E ent\u00e3o me lembrei que essa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nova.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Jo\u00e3o 6 e os que foram embora<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em Jo\u00e3o 6, Jesus diz uma coisa que soa estranha at\u00e9 hoje: que sua carne \u00e9 verdadeiramente alimento, seu sangue verdadeira bebida, e que quem o comer e beber permanecer\u00e1 nele e ele nessa pessoa. \u00c9 uma linguagem densa, quase perturbadora. E o texto registra a rea\u00e7\u00e3o sem drama: muitos disc\u00edpulos disseram &#8220;dura \u00e9 esta palavra&#8221; e foram embora.<\/p>\n\n\n\n<p>Jesus n\u00e3o correu atr\u00e1s. N\u00e3o simplificou. N\u00e3o convocou uma reuni\u00e3o para revisar a comunica\u00e7\u00e3o. Virou para os doze que ficaram e perguntou, com uma economia brutal: &#8220;Tamb\u00e9m v\u00f3s quereis ir?&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz que conheci estava em Jo\u00e3o 6. Com dois mil anos de dist\u00e2ncia, ele repetia o mesmo gesto \u2014 deixar o banquete por causa da linguagem. E Jesus, naquele cap\u00edtulo, j\u00e1 havia dado a resposta: o problema nunca foi a palavra. Foi o que estava por tr\u00e1s dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre os disc\u00edpulos de Jo\u00e3o 6 e o rapaz que conheci. Os disc\u00edpulos ouviram a explica\u00e7\u00e3o diretamente da boca de Jesus e ainda assim foram embora. O rapaz nunca recebeu a explica\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m havia sentado com ele para dizer de onde vem essa linguagem, o que ela significa, e o que ela definitivamente n\u00e3o significa.<\/p>\n\n\n\n<p>E se o problema n\u00e3o fosse ele rejeitar a linguagem \u2014 mas n\u00f3s nunca termos explicado de onde ela vem?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Deus \u00e9 esp\u00edrito. Isso muda tudo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aqui est\u00e1 algo que a teologia cl\u00e1ssica sempre soube mas raramente diz em voz alta: Deus n\u00e3o tem corpo. N\u00e3o tem genit\u00e1lia. N\u00e3o tem sexo biol\u00f3gico nem g\u00eanero no sentido que damos a essas palavras. Jo\u00e3o 4.24 \u00e9 direto: &#8220;Deus \u00e9 esp\u00edrito.&#8221; N\u00fameros 23.19 \u00e9 ainda mais expl\u00edcito: &#8220;Deus n\u00e3o \u00e9 homem.&#8221; Os\u00e9ias 11.9 repete, com Deus falando na primeira pessoa: &#8220;Porque eu sou Deus e n\u00e3o homem.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Agostinho sabia disso. Tom\u00e1s de Aquino sabia. Calvino sabia. Toda a tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica insistiu que os nomes de Deus s\u00e3o <em>anal\u00f3gicos<\/em> \u2014 e vale parar aqui para explicar o que isso significa, porque \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma linguagem anal\u00f3gica \u00e9 aquela que diz algo verdadeiro sem dizer tudo, e que nunca deve ser confundida com descri\u00e7\u00e3o literal. Pense assim: se eu digo que meu cachorro \u00e9 leal, estou dizendo algo real. Mas n\u00e3o estou dizendo que ele assinou um contrato ou que refletiu sobre as implica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas da lealdade. A palavra &#8220;leal&#8221; se aplica a ele de forma verdadeira mas parcial \u2014 ela captura algo real da sua natureza sem esgotar o que ele \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Com Deus, o abismo \u00e9 infinitamente maior. Quando chamamos Deus de Pai, estamos dizendo algo real: que Deus \u00e9 origem, sustento, amor provedor, autoridade que n\u00e3o abandona. Essas coisas s\u00e3o verdadeiras. Mas n\u00e3o estamos dizendo que Deus tem cromossomo Y, que se senta \u00e0 cabeceira de uma mesa, que tem uma voz grave. Estamos usando uma imagem humana para apontar para uma realidade que transborda qualquer imagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Isa\u00edas 40 inteiro \u00e9 uma medita\u00e7\u00e3o sobre isso. &#8220;A quem, pois, me comparareis?&#8221; pergunta Deus. Isa\u00edas 55 completa: &#8220;Meus pensamentos n\u00e3o s\u00e3o os vossos pensamentos\u2026 como os c\u00e9us s\u00e3o mais altos do que a terra, assim s\u00e3o os meus caminhos mais altos.&#8221; A transcend\u00eancia de Deus n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de grau. \u00c9 uma quest\u00e3o de categoria. N\u00e3o \u00e9 que Deus \u00e9 muito maior do que um pai humano. \u00c9 que Deus \u00e9 de uma natureza que nenhuma palavra humana consegue conter completamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda palavra que usamos para Deus \u00e9 um dedo apontando para a lua. O erro n\u00e3o \u00e9 usar o dedo. O erro \u00e9 confundir o dedo com a lua.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>A B\u00edblia j\u00e1 chamou Deus de M\u00e3e. Voc\u00ea provavelmente n\u00e3o foi avisado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E se &#8220;Pai&#8221; \u00e9 aproxima\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fotografia \u2014 ent\u00e3o o que fazer com &#8220;M\u00e3e&#8221;?<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui muita gente se surpreende. Porque essa linguagem n\u00e3o foi inventada ontem por te\u00f3logos progressistas reunidos em algum simp\u00f3sio acad\u00eamico com caf\u00e9 de filtro e muita boa inten\u00e7\u00e3o. Ela est\u00e1 na B\u00edblia. Ela sempre esteve l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Isa\u00edas 49.15: &#8220;Pode uma m\u00e3e esquecer o filho que amamenta? Mesmo que ela se esque\u00e7a, eu n\u00e3o me esquecerei de voc\u00ea.&#8221; Deus usa a imagem da m\u00e3e para descrever seu pr\u00f3prio amor \u2014 e se coloca acima dela. A compara\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 decorativa. \u00c9 o argumento. Isa\u00edas 66.13: &#8220;Como uma m\u00e3e consola seu filho, assim eu o consolarei.&#8221; Deuteron\u00f4mio 32.18 usa o verbo hebraico <em>chul<\/em> \u2014 o mesmo verbo usado para as dores do parto \u2014 para descrever Deus dando origem ao povo. N\u00e3o \u00e9 met\u00e1fora suave. \u00c9 imagem visceral, corporal, deliberadamente materna.<\/p>\n\n\n\n<p>E o pr\u00f3prio Jesus, em Mateus 23.37, descreve seu amor com a imagem de uma galinha reunindo os pintinhos debaixo das asas. \u00c9 uma imagem dom\u00e9stica, feminina, protetora. Jesus escolheu essa imagem. N\u00e3o foi imposta a ele por nenhum comit\u00ea lit\u00fargico moderno.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale mencionar ainda a Sabedoria \u2014 <em>Hochm\u00e1<\/em> em hebraico, <em>Sophia<\/em> em grego \u2014 que aparece personificada em Prov\u00e9rbios 8 como figura feminina presente na cria\u00e7\u00e3o, ao lado de Deus, como artes\u00e3. A tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica sempre debateu o que exatamente a Sabedoria representa, mas o fato \u00e9 que a B\u00edblia escolheu uma figura feminina para habitar esse lugar t\u00e3o pr\u00f3ximo de Deus na origem de todas as coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 modernidade. \u00c9 redescoberta.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Cranmer e o povo que ouvia sem entender<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Arcebispo Thomas Cranmer, ao escrever o pref\u00e1cio do Livro de Ora\u00e7\u00e3o Comum em 1549, reclamava de algo estruturalmente parecido: o povo ouvia o culto em latim, l\u00edngua que n\u00e3o entendia, e &#8220;ouvia apenas com os ouvidos&#8221; \u2014 o cora\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito e a mente n\u00e3o eram alcan\u00e7ados. A liturgia existia, era tecnicamente correta, era historicamente estabelecida. Mas n\u00e3o chegava.<\/p>\n\n\n\n<p>Cranmer n\u00e3o estava propondo abandonar a tradi\u00e7\u00e3o. Estava propondo que a tradi\u00e7\u00e3o cumprisse sua fun\u00e7\u00e3o. A fun\u00e7\u00e3o do culto sempre foi instruir, alcan\u00e7ar, transformar as pessoas onde elas est\u00e3o. N\u00e3o onde achamos que deveriam estar, n\u00e3o onde estavam em outra \u00e9poca, n\u00e3o onde a teoria pressup\u00f5e que elas cheguem.<\/p>\n\n\n\n<p>A linguagem \u00e9 o ve\u00edculo. O ve\u00edculo existe para que as pessoas cheguem a Deus. Quando o ve\u00edculo se torna o destino, algo saiu errado.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Quem a imagem do Pai n\u00e3o alcan\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O mundo mudou. Isso n\u00e3o \u00e9 argumento teol\u00f3gico \u2014 \u00e9 observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica. A fam\u00edlia b\u00edblica, onde o pai era o centro, o sustent\u00e1culo econ\u00f4mico, a autoridade moral e o elo de continuidade da descend\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 a realidade de boa parte das pessoas que entram numa igreja hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem tenha sido abandonado pelo pai na inf\u00e2ncia e carregue isso no corpo. Para essa pessoa, &#8220;Pai&#8221; n\u00e3o evoca prote\u00e7\u00e3o \u2014 evoca aus\u00eancia. H\u00e1 quem tenha sido criado por uma m\u00e3e sozinha, que foi simultaneamente os dois, e que aprendeu que amor incondicional tem rosto feminino. H\u00e1 quem tenha sofrido abuso paterno e para quem a palavra &#8220;Pai&#8221;, dita no culto com solenidade, \u00e9 uma faca pequena repetida toda semana. H\u00e1 quem simplesmente nunca teve um pai presente o suficiente para que a imagem fa\u00e7a sentido como met\u00e1fora de amor.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estou dizendo que essas pessoas t\u00eam raz\u00e3o em rejeitar a linguagem do Pai. Estou dizendo que a linguagem n\u00e3o chega at\u00e9 elas \u2014 e que a B\u00edblia oferece outra porta de entrada que n\u00f3s simplesmente paramos de usar.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e3e de Isa\u00edas 49 alcan\u00e7a quem o pai de outros textos n\u00e3o alcan\u00e7a. N\u00e3o porque seja teologicamente superior. Porque \u00e9 humanamente diferente. E Deus, que \u00e9 infinitamente maior do que qualquer imagem, cabe em ambas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>Ortodoxia n\u00e3o \u00e9 o que parece normal. \u00c9 o que \u00e9 verdadeiro.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o estou propondo que abandonemos a linguagem do Pai. Ela \u00e9 b\u00edblica, \u00e9 tradicional, diz coisas verdadeiras e continua sendo usada por toda a liturgia crist\u00e3 com raz\u00e3o. Estou dizendo que ela nunca esteve sozinha na B\u00edblia \u2014 e que empobrecemos nossa liturgia ao faz\u00ea-la andar s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Chamar Deus de M\u00e3e n\u00e3o \u00e9 progressismo. N\u00e3o \u00e9 concess\u00e3o ao Zeitgeist \u2014 j\u00e1 usei essa palavra, sei, estou me repetindo deliberadamente. \u00c9 simplesmente abrir o que a tradi\u00e7\u00e3o sempre teve guardado e que, por algum motivo que tem mais a ver com hist\u00f3ria cultural do que com teologia, parou de circular.<\/p>\n\n\n\n<p>A estranheza que sentimos ao ouvir &#8220;Deus M\u00e3e&#8221; n\u00e3o \u00e9 sinal de erro teol\u00f3gico. \u00c9 sinal de h\u00e1bito interrompido. \u00c9 o mesmo estranhamento que os crist\u00e3os do s\u00e9culo XVI sentiam ao ouvir o culto em ingl\u00eas pela primeira vez depois de s\u00e9culos de latim. Soava errado. Era, na verdade, mais fiel.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-large-font-size\"><strong>O banquete ainda est\u00e1 posto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O rapaz que conheci perdeu a eucaristia. Perdeu o p\u00e3o e o vinho, a presen\u00e7a real de Cristo na mesa, o banquete que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 considera o centro da vida da igreja \u2014 por causa de uma palavra que Isa\u00edas usou s\u00e9culos antes de ele nascer, que Jesus usou em Mateus, que Deuteron\u00f4mio usou com o verbo do parto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele pensava que estava defendendo a ortodoxia. Estava, sem saber, rejeitando a B\u00edblia para defender um h\u00e1bito cultural do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>A palavra tomou o lugar de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>O banquete ainda est\u00e1 posto. A mesa \u00e9 maior do que qualquer palavra que usemos para descrev\u00ea-la. E Deus \u2014 que n\u00e3o \u00e9 homem, que n\u00e3o \u00e9 mulher, que \u00e9 esp\u00edrito e origem e amor que nenhuma l\u00edngua humana esgota \u2014 continua esperando que a gente apare\u00e7a para comer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rapaz que perdeu o banquete Conheci um rapaz que havia parado de ir \u00e0 igreja. N\u00e3o por descren\u00e7a. N\u00e3o por pregui\u00e7a. Por linguagem. 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